Foto: Arquivo/Agência Brasil
No futebol, o doping é definido como o uso de substâncias ou métodos proibidos com o objetivo de melhorar artificialmente o desempenho esportivo ou acelerar processos de recuperação física. A prática, além de violar regras esportivas, representa riscos à saúde dos atletas e compromete a integridade das competições. É nesse contexto que, no Dia do Jogo Limpo e de Combate ao Doping nos Esportes, celebrado em 15 de janeiro, última quinta-feira, o futebol brasileiro apareceu como uma das modalidades mais monitoradas do país em termos de controle antidopagem.
Embora casos pontuais ganhem grande repercussão pública, os dados disponíveis indicam que a incidência de doping no futebol nacional é historicamente baixa, resultado de um sistema que combina fiscalização frequente, educação preventiva e alinhamento às normas internacionais. O cenário é resultado de uma política estruturante do esporte de alto rendimento, com regras padronizadas internacionalmente e sistemas nacionais responsáveis por fiscalização, prevenção e punição.
O Bahia Notícias busca compreender as regras e métodos utilizados pelas agências nacionais e internacionais de controle ao doping no Brasil e os impactos dessas ações na dinâmica interna dos clubes de futebol e seus atletas. Nesta reportagem, o BN conversou com representantes dos dois principais clubes do estado, Esporte Clube Bahia e Esporte Clube Vitória, para compreender como o cenário se estrutura no cenário estadual e nacional entre clubes da Série A.
CONTROLE DE DOPAGEM
No Brasil, o controle antidopagem no futebol segue as diretrizes do Código Mundial Antidopagem, elaborado pela Agência Mundial Antidoping (WADA), e é coordenado pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD). O sistema funciona a partir da realização de testes em competição, geralmente após partidas oficiais, e fora de competição, sem aviso prévio, ao longo da temporada. As amostras coletadas, em sua maioria de urina e, em alguns casos, de sangue, são analisadas em laboratórios credenciados internacionalmente, e os resultados seguem um fluxo rígido de confidencialidade e julgamento.
Os dados mais amplos já consolidados sobre o futebol brasileiro indicam que o esporte está entre os mais monitorados do país. Em um período de quase dez anos, foram realizados mais de quarenta mil testes antidoping em competições nacionais, com pouco mais de uma centena de resultados positivos confirmados. Em termos práticos, isso significa que menos de três atletas em cada mil testados apresentaram algum tipo de infração, uma taxa considerada baixa em comparação com outros contextos esportivos.
As substâncias mais frequentemente detectadas nesse intervalo foram estimulantes, corticóides e diuréticos, muitas vezes associados a uso terapêutico inadequado ou falhas de orientação médica, e não necessariamente a esquemas sofisticados de dopagem.
Dentro dessa engrenagem, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) exerce papel central na operacionalização do sistema. A CBF mantém uma comissão permanente de controle de dopagem, responsável por viabilizar a coleta de amostras nas competições que organiza, como Campeonatos Brasileiros, Copa do Brasil e torneios de base. Embora a ABCD seja a autoridade máxima em termos regulatórios e de gestão de resultados, é a CBF quem atua diretamente no cotidiano das competições, garantindo que os procedimentos sejam cumpridos de acordo com os padrões internacionais. A entidade também participa de ações educativas e de alinhamento com clubes, reforçando protocolos médicos e de prevenção.
DA FARMÁCIA AO CAMPO
Esse cenário nacional se reflete diretamente na realidade dos principais clubes do futebol baiano, Bahia e Vitória, que historicamente disputam competições de alcance nacional e, por isso, estão inseridos no grupo de equipes mais monitoradas do país. Atletas desses clubes estão sujeitos a controles frequentes, tanto em jogos quanto fora deles, seguindo o mesmo padrão aplicado aos grandes centros do futebol brasileiro.
No caso do Esporte Clube Bahia, o combate ao doping é tratado como um processo contínuo de prevenção e educação interna. Em conversa com o Bahia Notícias, o clube destaca que a política antidopagem passa principalmente pelo controle rigoroso de suplementos e medicamentos utilizados pelos atletas. “O controle de doping aqui no Bahia está pautado no controle da suplementação nutricional dos atletas. Ou seja, todos os suplementos passam por uma rigorosa análise das empresas e pedimos todos os certificados de lisura, de acordo com a WADA (Associação Mundial do Doping)”, informou a assessoria de comunicação do clube.
Segundo o Bahia, o acompanhamento não se restringe a suplementos esportivos. “Todo medicamento, desde pomada até qualquer coisa que forem tomar, os atletas têm que avisar para a medicina e nutrição que eles estão tomando algo diferente para a gente poder fazer uma análise. E quando eles decidem fazer algo que a gente não concorda, eles têm que assinar um termo falando que eles são responsáveis por aquele processo”, afirmou o clube. A estratégia busca reduzir riscos de dopagem involuntária, situação comum em casos envolvendo medicamentos de uso cotidiano que contêm substâncias proibidas.
O clube também aponta a educação como eixo fundamental da política antidopagem. “Além disso, promovemos palestras educacionais para os atletas, para que eles entendam a importância de todo”, completou a assessoria, ao destacar ações internas voltadas à conscientização e à responsabilidade individual dos jogadores.
Embora não haja dados públicos que detalhem o número de testes ou eventuais resultados específicos por clube, o enquadramento institucional de Bahia e Vitória indica que ambos operam sob um grau elevado de vigilância, compatível com equipes que disputam as principais competições do país. Assim como ocorre em outros clubes tradicionais, o foco do controle antidopagem não está apenas na punição, mas na construção de rotinas médicas, nutricionais e educativas que reduzam a margem de erro.
No caso do Esporte Clube Vitória, o BN conversou com o médico ortopedista Rodrigo Alves, um dos responsáveis pelo setor médico do clube. Em entrevista, o especialista em medicina do esporte destacou que o Departamento Médico atua ativamente junto aos atletas em ações de conscientização.
“Ao iniciar a temporada ou na pré temporada, nós sempre fazemos uma uma palestra sobre o doping, sobre as orientações do que é doping, quais são as substâncias que se incluem nos medicamentos e nas substâncias que a WADA restringe”, conta.
Ele explica que a aproximação com os jogadores ocorre até mesmo em formato extra-clube. “Nós conscientizamos os atletas a sempre que utilizarem ou forem indicados [a utilização de] alguma substância ou medicação, eles contactem sempre o DM antes. Todos têm nossos números, mesmo que não estejam no clube, seja viajando, nas férias, eles sempre enviam, nos perguntam, se é autorizado [o medicamento ou substância] ou não”.
Esse cuidado com a saúde e fiscalização de substâncias não se restringe aos futebolistas veteranos no time. Alves conta que a gestão do DM presta a mesma atenção com os atletas novatos ou recém-admitidos no clube.
Segundo ele, “todo atleta que realiza admissão no Esporte Clube Vitória, nós fazemos a avaliação pré-participação, em que nela consta a medicação que utiliza, as doenças que eles tenham ou doenças pregressas que necessitem da utilização de algumas medicações que a gente precise fazer a solicitação a CBF”. Ele explica que as medicações específicas necessárias são solicitadas à ABCD, que realiza a liberação das substâncias em casos excepcionais.
Tendo atuado na base do Vitória durante dois anos, Rodrigo Alves comenta ainda sobre a abordagem junto aos atletas juvenis, que são amplamente expostos a substâncias irregulares, especialmente no que diz respeito a hormônios de crescimento e ganho de peso e massa muscular.
“A gente desaconselha desde a infância [o uso de substâncias]. É dever nosso conscientizar e educar os atletas mais novos que não utilizem. A gente desaconselha firmemente a utilização de hormônios, principalmente hormônios do crescimento. Sempre a gente orienta sobre o doping, sobre o malefício que ele pode ser causado ao organismo do próprio atleta”, garante. O responsável do Departamento Médico também explica que o tratamento segue exatamente os mesmos padrões da equipe profissional.
“Na base também a gente faz palestras, a gente orienta. E no DM, as medicações que constam são as mesmas da base e do profissional. Então, não entra medicação que seja proibida”, sucinta.
Rodrigo fez um alerta ao explicar as reações indesejadas que a aplicação de hormônios pode causar no corpo do atleta. De acordo com ele, o corpo pode dar uma resposta negativa e ‘pedir’ que a glândula específica pare ou diminua a produção do hormônio.
“Nosso corpo funciona, em melhor estado, quando está em total equilíbrio. Se você utiliza uma substância de forma artificial e se utiliza de hormônios, o corpo vai entender que o local inicial em que aquele hormônio foi produzido tem que ser desestimulado, digamos assim. Então há uma resposta negativa, uma retroalimentação negativa para aquela glândula parar de produzir aquele hormônio ou reduzir a produção”, explicou.
O profissional ainda acrescentou que a consequência desse desequilíbrio hormonal ainda pode trazer sérios problemas de desestruturação do sistema endócrino do atleta. “Então você pode desestruturar e desregular todo o sistema endócrino do corpo humano. Isso pode causar sérios problemas na saúde do atleta. A curto prazo, a médio prazo ou até a longo prazo”, finalizou.
A seriedade utilizada para lidar com o tema nos clubes baianos demonstra que, no futebol brasileiro, o combate ao doping se consolidou como um sistema permanente, sustentado por fiscalização constante e por um esforço crescente de prevenção.
Em clubes de grande expressão regional, como Bahia e Vitória, essa política se traduz em protocolos internos cada vez mais rígidos, alinhados às exigências nacionais e internacionais. Em um esporte marcado por alta exposição e intensa cobrança por resultados, o jogo limpo deixou de ser apenas um discurso e passou a integrar, de forma definitiva, a gestão do futebol profissional.
Por Bahia Notícias
